« CENSURA? | Main | DOMINGO »

OPOSIÇÕES E BODA CIGANA

(crónica publicada no Correio Alentejo de 3/11/2006)

"1. (...) Se um dia PS e PSD compreenderem a força dos votos que recebem nas urnas talvez a cidade e a região conheçam um novo rumo. E a oposição também."

"2. (...) É verdade que também os ciganos têm direitos, mas não nos obriguem a abdicar dos nossos em nome de uma falsa política de inclusão social."

1. Na minha anterior crónica, a que dei o título de “Um ano cheio de nada!” (Correio Alentejo Nº 28 – 13/10/2006), tentei abordar a actuação do executivo da Câmara Municipal de Beja no primeiro ano do mandato iniciado em Outubro de 2005. Gostaria agora de aflorar o papel da oposição durante este período, tarefa que poderá apresentar algumas dificuldades pois nem sempre é fácil escrever em causa própria, pelo que tentarei, de forma mais ou menos autónoma, analisar o exercício da oposição ao actual executivo.
Começo por afirmar que foi acertada a decisão dos 4 vereadores (3 do PS e 1 do PSD) em não aceitar pelouros. A CDU foi a força maioritária e deverá ser ela a governar os destinos do concelho. Mas com algumas limitações, como adiante se verá.
Questiona-se que papel deverão ter os vereadores da oposição.
Julgo que, em primeiro lugar, serão “fiscalizadores” da actividade do executivo e, simultaneamente, geradores de debate sobre as propostas que o município local pretenda levar a cabo. E aqui a oposição tem dois caminhos a seguir: ou faz oposição por antecipação ou fá-la por reacção. Quer isto dizer que, ou é a própria oposição a marcar o compasso da governação ou, em alternativa, ir a reboque das decisões camarárias.
Este papel não é fácil de desempenhar, pois a regularidade quinzenal das reuniões camarárias e os próprios assuntos que aí são tratados não dão margem de manobra para que a oposição possa “brilhar”. Acredito que os vereadores da oposição desconheçam a maior parte do que se vai passando na Câmara e que algumas das acções desta só cheguem ao seu conhecimento através da comunicação social.
Para além disso, a oposição não actua em bloco, PS e PSD não têm estratégias comuns, se é que algum destes Partidos tem uma estratégia enquanto força opositora à CDU na Câmara Municipal de Beja e as recentes queixas que lhes ouvimos cairão – se não caíram já – em saco roto.
A acção opositora ao executivo comunista não existiu durante este primeiro ano de mandato e foi, não se duvide, na Assembleia Municipal (AM) que se assistiu ao exercício de contraposição, quer pelas intervenções de munícipes, quer pelos representantes do PS e do PSD. Só que a aritmética não falha: a CDU detém a maioria absoluta na AM e qualquer proposta ou diploma do executivo verá sempre luz verde neste órgão, pelo que a oposição será, só, um processo de boas intenções e pouco mais.
Perguntarão, pois, alguns leitores (e eleitores): o que é que fazem os vereadores da oposição? A resposta caberá aos próprios vereadores – de que desconhecemos a maior parte das iniciativas - mas, na minha óptica, eles deveriam fazer isso mesmo: oposição ao executivo, reprovando aquilo que considerassem inútil ou prejudicial para o desenvolvimento da região e, simultaneamente, fazendo aprovar as propostas que tenham em vista o bem estar dos munícipes. Só que, como referi, a oposição não tem uma estratégia comum. Apesar da aritmética nos dizer que a oposição é maioritária.
Será, pois, com redobrado interesse que verei qual o posicionamento de PS e PSD na elaboração do Orçamento para 2007 e que propostas serão avançadas por estes dois partidos para constarem no Plano de actividades para o próximo ano.
Diz-me a experiência que algumas das sugestões da oposição serão aceites, de forma a permitir que os documentos sejam aprovados em sede de executivo, mesmo que as garantias da sua execução não passem de mais uma promessa. Tem sido assim e assim vai continuar a ser. O exercício de oposição em executivos tricolores não é faina fácil, principalmente quando se navega sem um rumo determinado e sem uma estratégia concertada. Se um dia PS e PSD compreenderem a força dos votos que recebem nas urnas talvez a cidade e a região conheçam um novo rumo. E a oposição também.

2 – A boda cigana, que teve lugar no parque de estacionamento da piscina coberta, deixou perplexos muitos bejenses, que não compreendem as razões que levaram a autarquia a autorizar a utilização daquele espaço para uma festa que, sabia-se à partida, iria originar atritos e insegurança.
Sabemos do bom acolhimento que a política de inclusão social – principalmente quando se trate de indivíduos de etnia cigana – tem por parte dos sucessivos executivos comunistas na Câmara Municipal de Beja. Conhecemos tudo o que tem sido feito – facilidades para a venda de artigos falsificados, habitação a custo zero – para que a comunidade cigana se integre na sociedade. Há, porém, uma questão a que os nossos doutos técnicos não conseguem responder: têm os ciganos vontade de se incluir numa sociedade que não respeitam e que não comunga dos seus interesses culturais?
Muitas mais perguntas se poderiam colocar, mas falar sobre a etnia cigana é quase um tabu que, normalmente, provoca o lado hipócrita daqueles que se escudam nas acusações de racismo e xenofobia aos que arriscam abordar o assunto.
É verdade que também os ciganos têm direitos, mas não nos obriguem a abdicar dos nossos em nome de uma falsa política de inclusão social.

Comments

Excelente crónica de quem anda atento à realidade desta cidade e não tem medo de dizer o que lhe vai na alma. Em relação ao teu desempenho na Assembleia Municipal, é uma verdade eterna que a oposição está lá para fazer oposição. Mas também para fazer consensos nas coisas fundamentais, embora esta porrogativa deva partir sempre da estrutura governativa e nunca da oposição, pelo que a tua conduta está correcta. Em relação aos ciganos, a sensação que se tem, e eu que nasci numa terra em que em crianças brincávamos todos uns com os outros (ciganos com não ciganos). É que o se está a fazer tudo na direcção contrária do que apregoa. Ou seja, esta persistente e anacrónica tentativa de "inserção", está criar ódios e intolerâncias de parte a parte e generalizadas. Sempre houve ciganos e não ciganos que se odiaram, mas o Alentejo era considerada uma região de saudável convivência entre estas comunidades, pois as duas sabiam o limite a partir do qual se entraria em conflito. Passa-se o mesmo na relação entre cristãos e muçulmanos; por exemplo, quando estudei em Lisboa, vivia numa residência universitária, e sabia que os chouriços e as linguiças que levava de cá, se as colocasse á frente de um guineense, estaria pelo menos a provocá-lo. Daí que a nivel nacional e sobretudo local, não se entende muito bem tudo isto; será que se algum não cigano pedisse para fazer a boda naquele local lhe seria permitido?

Habituaram-os mal, agora quando houver a coragem de eliminar o Rendimento Lelo Garantido é que vão ser elas! A taxa de assaltos vai subir vertiginosamente!

O Cigano é um fermento.
Tem o peso do vento e a leveza do ar.
Tem nas sombras o medo e sem o medo mostar,
Entra por qualquer janela, ou por qualquer portal.
Mas todo o fermento quer-se de modo igual.
Cresce e enforma e do azedume
Põe-se ao lume e longe do matar,
Come-se deste costume do "deixa-andar".
E vamos comendo nesta azia após dia
O bolo crescendo para eles com alegria.
E já Camões dizia, dos tempos mudados.
Que dos tempos, vontades.
Chegarão as idades.
em que o desejo de mudança,
destrava em destemperança,
da brisa em tormento.
E das sombras do medo,
(não é nenhum segredo)
sairá deste fermento
o novo degredo
para os filhos do vento!

Em relação aos ciganos, não poderia concordar mais contigo. Eles não se querem integrar, simplesmente porque preferem viver em comunidades fechadas. Lembro-me da altura em que trabalhava no Bairro da Esperança (Carmo Velho), quando chegava o dia do pagamento do rendimento mínimo era uma festa, gastavam tudo num instante... eles não precisam de ajuda, quanto mais se lhes dá pior!
Que trabalhem em vêz de passarem o dia deitados nos passeios do bairro! E que lhes sejam aplicadas sanções e coimas pelas ilegalidades que praticam.
Só assim as coisas se endireitam!

Boa crónica!
Penso que não se pode falar de executivo versus oposição! Devia de ser: Todos contra o governo. Se não fosse esse pequenississimo senão, parte da oposição camarária é do partido do governo....
Agora acerca dos pelouros, penso que Beja é demasiado pequeno para necessitar a oposição para isto. Só por isso faz sentido de os pelouros todos serem “ocupados” pelo partido eleito em maioria.
Acerca do ponto nº 2, tens toda a razão. Mas prefiro dizer: No comment....

No jornal na página seguinte à tua crónica vem um texto curioso de Jorge Serafim. Ele podia muito bem perguntado na Região Turismo Planície Dourada o porquê da não realização do festival do amor este ano em Beja. Ele diz que essa entidade apoiou este festival, a verdade é que o organizou! Ele que descanse, haverá mais amor em Beja no próximo ano, a não ser que o amor acabe de vez aqui em Beja....

Recomeçaram as dificuldades de comunicação.

Nikonman: Tenho estranhado o facto de ainda não teres comentado a homenagem da A. F. B. ao selecionador nacional e ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol. Por mais descabida que tenha sido, sobretudo por nos terem virado as costas e terem ido para Évora na altura da preparação para o Mundial da Alemanha, talvez haja argumentos justificáveis. Embora eu não esteja a vêr quais?

Post a comment